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Planejamento cirúrgico virtual na cirurgia de afirmação de gênero

Indivíduos transgêneros são pessoas cuja identidade de gênero ou expressão de gênero difere do sexo que lhes foi atribuído no nascimento. Existe uma forte e contínua identificação com o gênero oposto, e um desejo de viver e ser aceito como membro do sexo oposto. O indivíduo se sente como se estivesse “preso no corpo errado”. Portanto, há um desejo de se submeter a um tratamento somático para tornar seu corpo o mais congruente possível com a identidade de gênero vivenciada por si mesmo.

A terapia de redesignação de gênero pode ser um tratamento eficaz para melhorar a autoestima. A Cirurgia de Feminização Facial (FFS) é um termo genérico usado para descrever um grupo de procedimentos cirúrgicos cosméticos utilizados para modificar as características faciais masculinas. Tais procedimentos estéticos têm um papel crescente na transição do gênero masculino para o feminino, pois os pacientes apresentam melhora na qualidade de vida relacionada à saúde mental após essas intervenções.

A FFS pode incluir Cranioplastia de Feminização da Testa (FFC), rinoplastia, condrolaringoplastia e recuo mandibular. O contorno da abóbada craniana, principalmente da testa, ainda é um procedimento cirúrgico raramente realizado para redesignação de sexo. Além da remodelação óssea cirúrgica, diversos materiais têm sido utilizados para a remodelação e refinamento do osso frontal. O sexo femino apresenta pouca ou nenhuma protuberância nas sobrancelhas. Geralmente há uma curvatura contínua da testa nos planos axial e sagital, em contraste à área de plenitude no meio da testa, ligeiramente acima das sobrancelhas e estendendo-se para cima por 2–3 cm, observada no sexo masculino. Dependendo da expressão masculina para a redesignação de gênero da testa, diferentes técnicas de cranioplastia podem ser utilizadas para a feminização da testa.

As características visuais da mandíbula podem ser usadas para determinar o sexo com um alto nível de confiabilidade, especialmente porque uma mandíbula mais larga e afiada é considerada um indicador de masculinidade. A mandíbula masculina costuma ser 20% maior do que a feminina, apresentando também uma crista oblíqua externa mais espessa, ramo ascendente mais largo e longo, côndilo maior, alargamento mandibular mais pronunciado, ângulo goníaco mais agudo e um diâmetro bigonial maior. Em contraste, a mandíbula feminina é menor, com um ângulo goníaco mais obtuso e menos alargamento mandibular, resultando em um contorno mais macio e estreito. O mento em indivíduos do sexo masculino é mais amplo e longo com mais projeção, produzindo em geral uma silhueta maior que está associada à masculinidade. O mento feminino, ao contrário, é mais estreito com menos projeção, produzindo um queixo mais redondo que se equipara ao contorno feminino.

Guias para cirurgia de gênero

É possível reduzir mandíbulas largas e proeminentes, consideradas masculinas, corrigir o contorno mandibular e remodelar feições quadradas com remodelagem da borda óssea inferior, osteotomia do ângulo e redução do queixo. O objetivo deste procedimento é garantir um contorno suave das vistas frontal e de perfil e estabelecer boas dimensões esqueléticas sagitais, verticais e transversais que possam ser utilizadas como pontos de referência para cirurgias estéticas subsequentes.

Tradicionalmente, a quantidade de recontorno e redução das proeminências ósseas realizadas em procedimentos cirúrgicos costuma ser baseada na experiência e na percepção artística do cirurgião. No entanto, com essa abordagem tradicional, sub-ressecção, ressecção excessiva ou ressecção desigual (lado a lado) podem acontecer. Dessa forma, pensando no bem-estar do paciente, visando uma recuperação mais rápida e um processo cirúrgico menos dispendioso em todos os aspectos possíveis, o uso de tecnologias como planejamento cirúrgico virtual e dispositivos auxiliares de osteotomia são aconselhados.

Primeiro porque o planejamento cirúrgico virtual auxilia no processo cirúrgico em si, segundo porque o paciente pode participar da tomada de decisões e terceiro porque os dispositivos auxiliares de osteotomia aumentam a segurança do procedimento.

Em um estudo realizado por Gray e colaboradores essa abordagem tradicional foi menos precisa em comparação com o grupo em que se usou o planejamento cirúrgico virtual e dispositivos auxiliares de osteotomia. Foram operadas quatro regiões e observou-se que houve menos acurácia sem o uso de planejamento cirúrgico virtual.

Mais importante ainda, o grupo de planejamento cirúrgico virtual demonstrou maior segurança em relação à redução de lesão intracraniana (com a osteotomia do seio frontal) e diminuição da lesão do nervo (com as osteotomias do ângulo mandibular). Além disso, o grupo de planejamento cirúrgico virtual teve maior eficiência com tempos operatórios reduzidos em comparação com o grupo de planejamento não pré-operatório. O planejamento cirúrgico virtual para a região frontal minimizou a necessidade de revisões e ajustes intraoperatórios. Esses tempos de cirurgia reduzidos com planejamento cirúrgico virtual foram vistos desde os primeiros casos de planejamento cirúrgico virtual. Sem planejamento pré-operatório, há uma curva de aprendizado com longos tempos operatórios para os primeiros casos e, em seguida, uma lenta diminuição dos tempos operatórios à medida que se ganha experiência.

O que se deve ter em mente é que a cirurgia de feminização facial é uma parte significativa da transição de gênero e os pacientes transexuais que procuram a cirurgia de feminização facial, como qualquer pessoa que procura a cirurgia, devem ser avaliados cuidadosamente e devidamente aconselhados.

REFERÊNCIAS

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